lubi prates

LUBI PRATES

PARA ESTE PAÍS

para este país
eu traria

os documentos que me tornam gente
os documentos que comprovam: eu existo
parece bobagem, mas aqui
eu ainda não tenho esta certeza: existo.

para este país
eu traria

meu diploma os livros que eu li
minha caixa de fotografias
meus aparelhos eletrônicos
minhas melhores calcinhas

para este país
eu traria
meu corpo

para este país
eu traria todas essas coisas
& mais, mas

não me permitiram malas

: o espaço era pequeno demais

aquele navio poderia afundar
aquele avião poderia partir-se

com o peso que tem uma vida.

para este país
eu trouxe

a cor da minha pele
meu cabelo crespo
meu idioma materno
minhas comidas preferidas
na memória da minha língua

para este país
eu trouxe

meus orixás
sobre a minha cabeça
toda minha árvore genealógica
antepassados, as raízes

para este país
eu trouxe todas essas coisas
& mais

: ninguém notou,
mas minha mala pesa tanto.

TO THIS COUNTRY

to this country
I would bring

the documents that make me a person
the documents that prove: I exist
it seems silly, but here
I’m not that sure: I exist.

to this country
I would bring

my degrees and the books I read
my box of photographs
my electronic devices
my best panties

to this country
I would bring
my body

to this country
I would bring all those things
& more, but

bags were not allowed

: there was not much space

that boat could sink
that plane could break

with the weight of a life.

to this country
I brought

the color of my skin
my curly hair
my mother language
my favorite foods
in the memory of my tongue

to this country
I brought

my orixás
over my head
all my family tree
ancestors, roots

to this country
I brought all those things
& more

: nobody noticed,
but my bags weigh so heavy

CONDIÇÃO: IMIGRANTE

1.

desde que cheguei
um cão me segue

&

mesmo que haja quilômetros
mesmo que haja obstáculos
entre nós

sinto seu hálito quente
no meu pescoço.

desde que cheguei
um cão me segue

&

não me deixa
frequentar os lugares badalados

não me deixa
usar um dialeto diferente do que há aqui
guardei minhas gírias no fundo da mala
ele rosna.

desde que cheguei
um cão me segue

&

esse cão, eu apelidei de
imigração.

2.

um país que te rosna
uma cidade que te rosna
ruas que te rosnam:

como um cão selvagem

esqueça aquela ideia
infantil aquela lembrança
infantil

de sua mão afagando um cão
de sua mão afagando

seu próprio cão

ficou em outro país
ironicamente, porque a raiva lá
não é controlada

aqui, tampouco:

um país que te rosna
uma cidade que te rosna
ruas que te rosnam:

como um cão

: selvagem.

CONDITION: IMMIGRANT

1.

since I arrived
a dog follows me

&

even if there are miles
even if there are obstacles
between us

I feel your hot breath
on my neck.

since I arrived
a dog follows me

&

doesn’t let me
hang out at hip places

doesn’t let me
use a different dialect from the one here
I kept my slangs inside my bag
he growls.

since I arrived
a dog follows me

&

this dog, I called
immigration.

2.

a country growling at you
a city growling at you
streets growling at you:

like a wild dog

forget that childish
idea that childish
memory

of your hand petting a dog
of your hand petting

your own dog

is in another country
ironically, because rabies, there,
is not under control

here, all the same:

a country growling at you
a city growling at you

like a wild

:dog.

—translated by rodrigo bravo
Lubi Prates is a Brazilian poet and writer. She was born in 1986 in São Paulo. Prates holds a degree in Psychology, specializing in Reichian Psychoterapy, and published the books Coração na Boca (2012) and Triz (2016). She also contributes to the edition of the literary review, Parênteses. Her poetic works are dedicated to denounce the invisibility of women and people of color in the literary scene.